quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Vitória Vs. Quem não quer ser


Agora estava a um passo da maior descoberta de todos os tempos, pelo menos pra mim, mas ainda nem sabia disso. Bom, talvez se soubesse estaria mais excitado. Subia as escadas de mármore da cabana luxuosa que a tempos observara de fora. Era lindo e assustador. Os vidros escuros e os moveis também. As paredes em vermelho vivo e um piano longo, que supus jamais ser tocado. Era uma família pequena, a mãe fora médica, o pai antropólogo. O pouco que sabia-se deles até então, era que não podiam ter filhos e moravam sozinhos, com a companhia da mesma empregada desde que construíram a casa, uma moça timida que quase nunca saia, segundo a vizinha que terminava de ser interrogada. Homens tiravam fotos e conversavam sem dar muito valor a cena rotineira. O chefe com seu olhar frio e o cigarro pela metade no canto da boca, disse para mim subir até o quarto do terceiro andar.


***

Havia sido o frio mais intenso, o de 96, ao menos pra mim, que trabalhava num escritório, caminhando cerca de trinta minutos para chegar lá. Nas ruas mais movimentadas, passavam carros e motos, pessoas e cães vira-latas todos conexos no frio inaceitável daquela época. Era impossível não ligar. O calor humano morria ali. Olhos com remela, abaixo da touca de lã, acima da manta cobrindo a ponta vermelha de um nariz que fungava segurando os ranhos, as vezes era tudo que podíamos ver no rosto dos obrigados a caminhar. A paisagem me reconfortava, imaginando uma Europa distante e gloriosa que não havia sido apresentado. A geada típica, acompanhada das folhas mortas, dos quintais varridos pela solidão dos homens sem mate e dos cães sem latido. Cães que tentavam enxergar algum movimento diferente dentro e fora de casa, pelo buraco de suas gélidas casinhas de madeira bem abaixo das chaminés que aqueciam lares, junto da água fervente, que aquecia o corpo quente que me via lá fora passar. Era somente eu na rua, nesta rua. Por vezes passava uma mulher com um cigarro na boca. Uma garota incrivelmente linda, ainda que entrouxada de roupa, com os cabelos cacheados por falta do banho que existia nas manhãs de verão.
Eis que surge a cabana. Uma pirâmide imponente que não temia ao frio, como as casas ao redor. As outras, encolhiam-se. Esta erguia-se como uma fogueira de quase dez metros. Vermelho nas paredes. Vidros negros, grades negras. Mármore imitando tabuleiro de xadrez, desde o portão até a porta de entrada, os vidros devidamente abertos, na perfeita simetria de toda aquela grande obra. Um vidro se fechou. Exatamente quando eu passei. E assim permaneceu pelo resto dos dias que cruzei por ali. Cada manhã e cada noite. Sempre fechado. Sempre claro, significando uma luz sempre acesa, significando alguém sempre ali, significando uma solidão, uma exclusão, um esquecimento, talvez um pretexto para indicar a presença de vida. Ou era apenas uma luz?

Vamos para o dia em que pego o livro de funcionários do escritório em que trabalhava e vejo uma garota negra, de olhar sereno, linda, mesmo sendo numa foto 3x4. Seu nome é Vitória de Soño, sua idade, a mesma que a minha. Sem endereço, telefone ou qualquer outro complemento. Uma semana na empresa. Tudo tão vago quanto o olhar na foto apagada que pensei em roubar. (Roubei.) Uma foto que passei meses olhando, pensando. Queria encontrá-la. Não para tentar me casar, mas para descobrir o grande mistério que eu criara, já que o pessoal dali falava pouco, sem interesse algum, sem o sentimento de que pairava algo confuso no olhar da bela moça. “Eu não sei, não sei! Já falei que ela não falava com ninguém, parecia que tinha medo até de atender o telefone, quando pedimos para ela trazer a documentação, ela nunca mais apareceu.” Vitória ficara no fundo do bolso da carteira. Até agora.


***

Burkina Faso foi o pais escolhido pelo Dr. e Dra. de Soño para passar sua lua de mel. Desenvolver um serviço social num dos países mais pobres do planeta encantava tanto o antropólogo, quanto a médica. Manter um diário de bordo que possivelmente virasse um livro, tendendo ser comentado por alguém do conselho nacional ou da mídia, ousando tornar-se um pretensioso documentário, quiçá um longa com algum romance politizado, era o mais oculto dos sonhos idealizado pelo casal. Claro que seria merecida a recompensa de todo o esforço em prevenção ao HIV, o esforço para combater a mortalidade infantil e o auxilio básico a população, pensava a doutora que era mais ambiciosa que seu marido. Fixaram-se então na capital Uagadugu e exploraram os bairros pobres dando todo o suporte necessário. Seus trabalhos tinham grande notoriedade e passando alguns meses, surgiu Zola Marvena Meeca, mais uma jovem, que implorava comida para suas seis filhas. Os doutores olharam para suas pequenas crianças. Em meio a toda miséria, elas davam risada para matar a fome, brincavam com a terra que logo seria seu alimento. Em meio a toda aquela desgraça, tinham fé num Deus que havia ido comprar cigarros e jamais voltara. Um olhar mágico saia dos olhos da mais velha de todas. A doutora perguntou com seu excelente francês, abrindo um sorriso receptivo, o nome daquela que destacava uma beleza quase extinta naquele lugar. Chamava-se Lubaya, tinha nove anos e sorria tímida.
Zola tornou-se a mais dedicada auxiliar que qualquer médico poderia ter. Implorou um perdão desnecessário, quando contou sobre seu sétimo filho. Um menino, dessa vez. Os doutores mantinham-se agora no povoado mais pobre da cidade, junto com Zola e as crianças. Sempre havia alguém para consultar e alguém para necropsiar. A morte era a televisão das crianças de Burkina Faso. O horário eleitoral gratuito, o futebol das mulheres e a novela dos homens. Zola cresceu em meio a tudo aquilo. Caminhava pelas beiradas. Equilibrava-se nas pernas secas, nos recordistas 23 anos de vida. A doutora seguia sorrindo diferente para a encantadora Lubaya, que respondia ao carinho, até a noite em que estourou a bolsa de Zola. Era complicado explicar, mas o parto tornou-se de risco, mesmo com todos os cuidados, tinham que escolher entre ela e o bebê. Ela. O bebê. Nenhum dos dois se salvou. Nenhum dos quatro no quarto. Nem Zola. Nem a criança, nem os doutores. Tudo acabara ali. As proporções foram além do imaginável. O sangue de Zola manchava a carreira fantástica daquele casal. Manchava o espírito. Manchava a adormecida Uagadugu, na amarga e finita noite do casal de Soño, naquele distante pais africano.


***

Quando abri a porta do quarto, dei um sorriso de alivio. Finalmente eu matava uma curiosidade infantil. Ele estava impecável, mas não era tão belo quanto imaginava nas frias manhãs que passava, a onze anos atrás. Ao dar alguns passos avistei uma folha, propositadamente colocada no chão, ao centro do quarto, de forma que a primeira palavra, mesmo não sendo a primeira escrita no papel, que meus olhos conseguiram ler, foi: Vitória. Minhas mãos se atiraram até a folha, enquanto alguém perguntava-me se havia algum corpo no quarto. Respondi que não e voltei toda a atenção para o meu santo graal. Letras lindas, escritas em trechos, numa colagem xerocada, com partes sublinhadas por um marca texto verde florescente. Comecei a ler:

“Conheci a garota mais linda que os meus olhos poderiam ver, nesta doença infernal chamado África. Ela tem nove anos e é filha mais velha de uma mulher que vem sendo muito útil nas nossas pesquisas sobre partos naturais em situações extremas... Robert se encantou com a pequena Lubaya tanto quanto eu, e se tudo der certo pediremos apoio ao nosso governo para sua adoção... Lubaya é tão doce, que tive medo de sua reação sobre o parto. Zola já estava contaminada com o vírus, por isso apenas lhe poupamos tanta dor, e o governo nos concedeu sua guarda de maneira tão simples que não há mais necessidade de ficarmos aqui... As crianças acharão seus caminhos, levaremos elas pra Gana, onde o auxilio a órfãos tende a ser melhor... A menina esta quieta demais, mas sei que faz parte de sua adaptação em sua nova vida... Na nova casa projetamos o melhor quarto para ela... Queria tanto ser chamada de mãe... Queria tanto publicar sobre nós, sobre Burkina, Zola, sobre tudo, mas Robert e eu sabemos o quanto isso iria nos prejudicar... Repudio-me toda manha quando penso que tenho que mentir aos vizinhos que minha filha é apenas a diarista... Se pudesse voltar no tempo queria estar com minha filha naquela cidade terrível de onde ela veio, quem sabe assim eu veria o sorriso mais lindo do mundo... Temo que ela queira voltar, temo que ela esteja suprindo uma raiva enorme por mim e Robert... Pagamos a faculdade mais cara de medicina para ela, e não consigo ver felicidade vindo em minha direção... Queria tanto que ela conhecesse alguém, que finalmente tivesse uma alegria sincera... Quero netos, antes que esses remédios me matem... Robert esta me deixando louca... Hoje acordei e ela finalmente me abraçou e disse “obrigado, mãe” com um português legitimo, no começo parecia uma despedida, mas agora sei que ela me ama...”

Quando virei a folha, estava escrito em francês, com caneta azul, a frase que terminava toda esta história. Assim como a foto roubada, anos atrás, peguei o papel e coloquei-o no bolso, a maior e provavelmente única prova do envenenamento do casal de Soño. Jamais a conheceria, mas tive a certeza que limpara todas as poucas evidências de sua longa estada na vida do casal. Obrigado, linda Lubaya, por permitir que eu soubesse ao fim, sua existência. Mesmo você jamais sabendo da minha, obrigado.
“Achou alguma coisa?” “Nada...” “A empregada sumiu, faz mais de meses, segundo os vizinhos. Acharam o corpo daquele ladrãozinho de merda a três quadras daqui. Bom, se não for ele, agora vai ser. Ei! Tá me ouvindo porra! Bora lá da uma olhada no bandidinho...”
Palavras podem salvar você?
Podem me salvar?
Pelo menos senti o prazer de ser o único a conhecer a verdadeira história.

“Après beaucoup de temps je ressens le Vitória être Lubaya”
(Depois de tempos eu sinto a Vitória de ser Lubaya)


***

Numa tarde quente e típica, no Aeroporto Accra Kotoka, em Gana, Lubaya respira seu verdadeiro ar, começando uma nova busca, numa nova vida, encarando o fato que acabara de vez vencendo, por não querer ser a falsa Vitória.

Ami Porto

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Parábola do rei na barriga

Ele não quer apenas enfiar as mãos dentro daquele vestido, ele quer todos os lábios dela para si. Quer desfrutar do gosto da beleza e prendê-la sem mais porquê. E sugar sua vida, torná-la escrava de todos os seus desejos e pecados. Quer a vingança por outra e outra. Sentir-se Deus numa forma mais rude e o Diabo na sutileza.
Então vai. Seu perfume assassino exala o vigor do olhar. Espera a bela vítima calar com seus olhos verde água, justamente agora que os olhares se atraem pela longa caminhada até sua direção. A boca dela, que tem batom vermelho sangue, que contrai levemente o labio inferior, passando a lingua devagar sem perceber, é vitima do nervosismo que olhos escondem.
Reparem na musica de Edit Piaf soando ao fundo, como se os anjos acabassem de ser manipulados pelos demônios da luxúria. E já falei do vestido branco? Sim, branquíssimo, de tecido leve. E as mãos com aliança ao redor, pediam com toda fé para serem algemadas, imploravam a todos os santos para não transparecer a respiração ofegante ao pé do ouvido de sua parceira. Ele prosseguia em passos lentos, com vontade de desfrutar da virilidade obsessiva que possuía, e só. Sem paixão ou compaixão. Ela olhava armando aquele maldito sorriso encantado enquanto aumentavam a fumaça no salão e alguns seguiam rodopiando.
Ela parada e ele se aproximando demais. Demais.

Não apenas enfiou as mãos dentro daquele vestido como teve todos os lábios e o gosto da beleza, que saia dela. Ela o agarrava firme ignorando sangue e suor que corria pelos buracos das costas feito com puro tesão. Quando acabaram, o fogo ainda queimava e ele teve certeza do êxito da alma que acabara de roubar. Sorriu nu, em frente ao espelho, antes de se limpar.

Oito anos e uma barriga mais tarde chegou a conclusão da real falia do seu brilhante plano na juventude, quando abriu a porta de sua casa e leu o bilhete que estava em cima da mesa, escrito às pressas:

“Volto tarde, peguei o cartão”.


Ami Porto

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Invisible Monsters

Por Ami Porto
Ilustração de PC Siqueira


Quando a beleza dela ou dela é superior as outras presenças, podemos nos considerar de certa forma invisível?
Quando tudo que dizem, é ignorado pelo simples fato de terem peitos, bundas e bocas enormes, elas deveriam agradecer?
Deveriam lamentar?

E você ai, queria a garota da propaganda do creme dental?
Sim, você queria a garota da propaganda do creme dental!
Para contar a todos, para honrar seus colhões, para sentir-se dono das bocas e pernas e bundas e peitos e braços, abraços, saliva e sexo.
Sim, nós queremos a todo instante apreciar a beleza que passa diante dos nossos olhos, e porque não provar da beleza que passa diante dos nossos olhos.

Mas Shannon McFarland desistiu desta vida, numa inversão da beleza a um caminho obscuro, guiada por Brandy Alexander, uma transexual viciada em Valium e outros benzodiazepínicos, elas imbarcam numa viagem interminavel em busca de vingança, descobrimento e redenção.
Com uma violenta critica a realidade materialista e consumista do mundo de hoje, criado pelo furioso Chuck Palahniuk, de Clube da Luta, fica exposto nesta obra as inúmeras formas de monstros, tanto físico quanto psíquico, tanto visível quanto invisível, que podemos nos deparar ao longo da estrada.

Monstros Invisíveis, de Chuck Palahniuk, 256 páginas, Editora ROCCO.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Revirem suas gavetas em busca dos papeis amarelados

Comecei a pensar em muitas vidas quando organizava os papeis empoeirados do quarto que anos me abrigara. Tossia feito louco a cada página velha que virava. Maldita alergia. Maldita nostalgia. Bondosa nostalgia, que me fez ver fotos de quem não vejo mais, de quem não quer mais me ver e de quem não quero mais ver. Todos estavam mortos. Pai, mãe, irmão, tio e avô. Eu era o estranho no meu ninho. E mais tosse, talvez por ter parado de fumar. Mas agora eu queria um cigarro, porém me compus. As paredes azuis estavam desbotadas, infiltradas e com teias de aranha. Minha aracnofobia havia desaparecido, mas agora sentia seu resgate eminente, com alguns sentimentos pendentes que humanamente me consumiam. Não havia mais meu cheiro. Mudou. Eu seguia as pistas da antiga casa. Fui até o quintal. Nada de hortelã na horta. O flamboiã estava morto. O parquinho das crianças com limo. Na cozinha o piso de madeira estalava ainda no mesmo lugar. Lembrei das inúmeras vezes que prometi entrar no porão para consertar. Logo o corretor estaria comigo, e o telefone tocou. "Mais uma hora, seu Newton", seu Newton era o tal corretor e eu precisava dele mais do que qualquer pessoa no mundo agora. Não precisava de Jesus, nem de uma terapeuta. Eu precisava de seu Newton, pra me desvincular eternamente daquela casa que tanta vida me proporcionou. No carpete do quarto algumas manchas que lembrei ser de vinho. Os móveis feitos sob medida, por mim e por Joca. Eu tinha saudades de Joca, e de outros que se perderam pelo mundo a fora. Há, Deus do céu, a gaveta falsa! Que horas escondia cigarro, horas guardava camisinha, baseado, dinheiro, horas guardava poemas e musicas para ela ou pra ela. Coloquei a mão lá no fundo, tentando não pensar nas aranhas. Tinha um papel. Puxei. Assoprei. Tossi. Agora os papeis que presumi serem importantes estavam guardados na pasta de couro que carregava e deixava para abrir ao fim desta história. Seu Newton iria querer tomar um trago para comemorar a venda da casa. Fora arrematada por uns 150 mil. Eu queria tomar um café, sozinho, lendo aqueles papeis velhos que eram minhas relíquias. Droga, aquele monte de papel amarelado valia mais que esses 150 mil! Fui ao banheiro do quarto. Diante do espelho quase não conseguia me ver. Estava velho. Eu e o espelho. Desbotado pela vida, rugas e cabelo branco, manchado e trincado, evoluído, porém cansado, mal lavado, porém reflexível. Seu Newton abriu o portão eletrônico já conversando com os compradores. Eles falavam sobre futebol, porque a essa altura o negocio já estava fechado. Na semana seguinte aquelas paredes viriam ao chão com toda a sua idade. Foda-se, pensei, eu não posso conservar essas paredes. Só posso conservar minhas histórias, meus amores, meus sabores de guerra de bexigas e banho de mangueira. Meus gre-nais sofridos, meus goles de cerveja gelada, meu suor e saliva de sexo. E dos perfumes de nicotina. Dos quecas embriagados, consumidos pela adolescência infinita, que agora eu não tinha. Onde foram todos os gostos e cheiros e amores da época mais preciosa de minha vida? Estão conservados em algum lugar, dentro de mim. Ninguém tira este patrimônio espiritual de mim. "Tu deve ter vivido bons momentos nessa casa, não é Seu Ami?" dizia o engravatado comprador da casa. "Nada de mais, eu mal parava em casa..." Foda-se o engravatado! Não tinha que transparecer meus sentimentos, ele não queria realmente saber, eu não queria realmente falar.
Dei uma velha desculpa pro trago comemorativo, enquanto o dinheiro ia para minha conta e fui ao café mais alto da cidade. Era uma bela vista. Abri minha pasta e comecei a folhar os papeis. "Você tem Marlboro ai?" "Temos sim senhor, maço ou box?" "Não, me traga apenas um café."
A vida passou. É isso... A vida passou como as madrugadas que eu passava escrevendo. Como as madrugadas em que me deliciava nos tecs da máquina de escrever e depois no computador e às vezes nos garranchos dos bloquinhos. E logo o sol dava oi. E a vida assim, passou. Caralho, como eu tava velho. Me sentia velho, mas minhas costas carregavam somente 53 anos. E minha mente? Todos nos culpamos pelo que fizemos ou deixamos de fazer, não é mesmo? Tá bom, eu sou teu marido, tu é minha esposa, aquele ali no canto esperando para ler tudo isso, é meu neto. E meu filho? Ele esta dando a volta na quadra esperando minha nora sair do salão de cabeleireiro. Ele vai comentar sobre seu lindo corte de cabelo, afinal, ela saiu do salão. Ela ficara puta, porque apenas fez as unhas. Tá bom, essa historia seria amável num simbolismo familiar, mas eu era um homem sozinho. Escolhi essa vida. ESCOLHI ESSA VIDA. Depois de três casamentos e unhas mal feitas, escolhi essa vida. Mas o mais importante agora eram os papeis. E Mr. Tambourine Man soava perfeito na jukebox do café. Veio a pré-escola, com cola colorida e glíter, a folha amarela e uma nota nove, dado pela minha primeira professora. A quinta serie, com excursões para puta que o pariu, que era o melhor lugar do mundo. Sétima e oitava, com bilhetes assim:

"Mãe, gostaríamos de informar que seu filho, Ami, receberá a ultima advertência antes de ser convidado a deixar de fazer parte de nossa escola, pelo fato de difamar o professor Dorival Neves, de física. Tais ofensas são indispensáveis de redigir neste bilhete. Espero sua resposta mesmo sabendo que tens trabalho em tempo integral, como já afirmaste por telefone. Diretora Italiana de Plates, E. E. E. F. José Lebre"

Cartas, mais bilhetes, notas, desenhos, mangás recortados, pôsteres recortados. Poemas e fotos. E fotos recortadas. "Mais café, por favor." Tudo sobre pó, sobre o valor do pó. Com os dedos pretos, logo corri para o mais amarelado de todos; aquele do fundo da gaveta falsa. Era um poema que havia escrito no dia anterior de minha partida para outra vida. Eu não lembrava que havia escrito aquilo, e tinha um significado enorme para mim. Para minha geração banal que não abrangia tudo isso que me consumia por demais.

"Textos de Hemingway,
Pinturas de Frida Kahlo,
Quadrinhos de Crumb, com textos de Harver Peaker,
Cobranças de faltas de Roberto Carlos,
E o velho Dylan rolando as pedras!
Takes de Kubrick, Almodóvar e Scorsese,
Dribles do Mané pelo fogão,
Polar, pra nos orgulhar do que é nosso,
Dando sentido a papo cabeça para os alienados
e papo idiota para os undergrounds,
Nessa salada mista, que é tão minha,
e poderia ser tão sua."

Eram somente palavras que me deram o cheiro da casa, a cor do flamboiã, o som das crianças no parquinho, o azul turquesa recém pintado. A cara de Joca, cansado depois de fazer os moveis, o sorriso alegre da garota mais bela da cidade, nos primórdios da paixão. Sai do café. Sem final triste. Sem final feliz. Sem ponto final. Apenas correndo as próximas vinte quatro horas esperando os papeis amarelar e serem lembrados da felicidade maior que queremos ter, e já tivemos

(sem ponto final)

Ami Porto

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Fugas

Eu me destaco na multidão?
Com cigarro barato envenenando todos os corações ao meu redor?
Você se destaca na multidão?
Com sua beleza avassaladora de propaganda de shampoo?

Me permiti dormir pela tarde, num banco quadrado da rodoviária, aproveitar bem o intervalo ligeiro de minha insônia. Era meu primeiro aniversário longe de casa e a cada quadra via um rosto limpo e conhecido vindo me beijar. Esse rosto sumia. E não construía muito mais que isso. Um café, eu sonhei e logo tomei. Minha avó chegaria logo e a rodoviária estava sendo meu berço. Passavam homens com ternos baratos, garotos sujos entregando panfletos, táxis vermelhos, poluição, prostitutas, mais crianças, índios, indies, consumidores de churrasquinhos maravilhosos, de churrasquinhos de carne verde, de cerveja em latão, de pastel, pastel de rodoviária. Um homem gordo dormia ao meu lado. Escorado em sua sacola, agarrado em outra, sentado noutra. Todos passavam e minha cabeça começava a se cansar. O tédio me disse olá. Tive uma maldita perversão, e então comecei a imaginar cada vida que passava por ali, diante de meus olhos cansados, com terríveis olheiras.

(Aquele senhor de casaco preto estava indo encontrar sua amante, Ticiane. Ele esperara por semanas e finalmente a veria outra vez. Deus, como ele estava feliz. E Tici era linda. Ela queria dinheiro e botas novas, queria comer pizza e tomar champanhe. O senhor do casaco preto não queria uma boa foda, queria apenas algumas mentirinhas, um breve cafuné, um sorriso sincero que só viria acompanhado das botas.)

(O moleque de moicano corria para não perder o ônibus, que já havia partido.)

(A moça peituda do guichê namorava Beto havia três anos. Há dois dias ela não dava resposta sobre o pedido de casamento. Beto a amava muito, ele era motoboy e se fodia todo dia, por muito pouco. A moça peituda do guichê o amava mais ainda, porém o amor não pagava todas as contas. Ela queria se casar! Queria ter coragem e dizer aos quatro cantos o quanto era feliz e não tinha medo. Mas havia medo.)

(Dois garotos sondavam a bolsa duma velha, que poderia ser a minha avó, mas não era.)

(A garota de calça jeans justa estava indo se prostituir em Florianópolis, cursava arquitetura, mas perdeu a bolsa. Conheceu a amiga duma prima, que lhe daria essa grande oportunidade. Deixava para trás um namorado, uma vida de Patrícia, uma magoa pela briga com o pai e uma vontade de ser e não ser.)

E fumavam, todos fumavam. A cena típica de todo centro de cidade, garotas e garotos, velhos e mais velhos, motoboys e taxistas; ejaculados nessa nuvem absurda e natural que é a grande rodoviária da capital.
Toda aquela convulsão era necessária, fazia parte do show absoluto. Nos prédios velhos, ao redor, as mulheres adormeciam. Preparavam-se para a longa noite. Baixava o sol e da ponta da rodoviária dava para ver seu belo reflexo sobre o rio. Isso me trouxe uma longa sensação nostálgica de tempos macios, com cobertor de solteiro para dois e uma casa viva num inverno frio, aquecida com chocolate quente e pipoca temperada com condimento de miojo. Riso vivo, dum amor adormecido. Conversas bobas com amigos hoje imaginários. Os cheiros me confundiam a cada passo, a cada segundo. Cigarro mentolado, suor de trabalhador, espetinho de gato, café, cigarro novamente, mais suor, mais café, perfume barato e halls de cereja. Eu queria o cheiro do cobertor. O gosto do suco em pó barato, que jamais gostei. O som da musica tocando mais uma vez com seu forte refrão. Tudo era sonho, produzido pela insônia que ainda não voltara. Meio acordado, meio zumbi. Meio dormindo, meio zumbi.
Logo o celular tocou e o passado se confundiu. Tocou como a tempos não tocava. O caminhão passou anunciando um circo. O cara do churros empurrava cansado o carrinho. O muambeiro vendia Ray-ban. E o celular não cansava de tocar, sobre meu olhar humano. Droga, todos nós queríamos uma nova morada, numa ruptura do cordão umbilical, mas o sentimento de amor deixado em algum canto, era surreal para quase todos os presentes naquela bruta estação rodoviária.
Lá vinha minha velha senhora, com malas por cima de malas.
Silenciei com os passos que a acompanhavam.
Não veio sozinha, trouxe consigo a razão de minha calma.
Alguém resolveu vir me visitar, numa fuga antiga, em um novo lar.

Ami Porto

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Malditas Condições

(Acordei com o gosto leve de quem jamais sonha com aranhas e afogamento)

Ao meu lado um corpo nu. O lençol jogado ao chão sem dó nenhum. Cabelos longos e escorridos. Tatuagens vivas. Um cigarro pela metade e um suco de laranja a caminho. Seios fartos causaram impacto em meu colchão. Ela deu logo o play e Who Feels Love fez a terceira acordar, dando um magnífico oi. Havia cinto, meias, garrafas. Havia um suco de laranja nu em meu peito. Brindamos o ato, na chuva macia que vinha nos acolher. Fodemos pro tempo, com o tempo, no tempo. Nas condições que eu jamais saberia explicar. (Não queria tentar explicar.) Who Feels Love mais uma vez. E outra e outra. Quando isso acontece, nosso coração para e se engana. Mas a intensidade é tão brutal que me apavorava imaginar os momentos póstumos a tudo aquilo. Os lençóis mais brancos estavam suados, sugados. E bendito seja o anseio claro de viver! Viver nessa conduta imoral pros nossos vizinhos e primos de terceiro grau! Parara a chuva e tudo se acalmou. Pegaram as roupas e partiram. Agora eram as lembranças e o vazio. Sem choro e angustia. Eu, a solidão e a promessa de mais chuva, na televisão alta do apartamento ao lado.

Da janela do meu quarto
da para ver coisas verdes
e se olhar para baixo tem cocô de passarinho, no teto da garagem;
têm duas vizinhas que fingem não ver
que as vejo trocando de roupa às seis da tarde, antes de irem ao cursinho;
ao lado, tem churrasco nas quartas, sextas, domingos e feriados.
Tem meus discos e livros e pensamentos,
mas isso é do lado de dentro
da janela do meu quarto.

Pensei sobre toda essa confusão e ri bobo em frente ao espelho. Ainda saiba sobre as condições do tempo.


##


(Acordei com o gosto amargo de cidades passadas.)

Ao meu lado um corpo lindo, quase transparecendo toda paixão que há na terra. Me implorava um sorriso, mesmo dormindo, mesmo agarrada a um travesseiro branco tão comum . Eu dei o sorriso. Dei o sorriso e talvez muito mais que isso. Nossas almas se encontraram mais uma vez, na areia tão discreta das abominaveis praias daqui. Sabíamos das condições do tempo; apenas do tempo. Uma pausa, para um café. Uma pausa, para verificar se as condições eram de fato, validas. Ouve dias em que tudo valia a pena e novamente esses dias haviam chegado. E a pluralidade, a poligamia, a libertinagem, os devaneios sobre ménage à trois foram pra puta que pariu. A vida poderia escapar, continuar ou desistir. Uma pausa, para o cigarro. Outra pausa, outro cigarro. Ela ali, dormindo apática ao lado, sufocando o travesseiro que horas atrás era tão banal...

Da janela do meu quarto
posso ver a rua,
posso ver rachaduras do tempo,
as infinitas infiltrações.
Posso ver um pouco de sujeira,
ver a areia,
posso ver meus finais de semana passando,
passando quase em vão.

Ela acordou, se espreguiçou, olhou seria e apaixonada. Já não sabíamos sobre as condições do tempo.

Ami Porto

terça-feira, 23 de março de 2010

Coma

Odeio quando ela olha ingênua para o nada. Esse olhar me atrapalha, me faz pensar coisas que nem mesmo sei agora. Neste exato momento estou bem. Um momento bom. Um momento para ser guardado. Mas se ela olhar para o nada, aí eu já nem sei. Se duvidar pulo desta pedra para o mar. Para onde estas benditas ondas quiserem me levar. Ela aperta fundo. Prende, prende. Passa. Aquele olhar ingênuo esta sobre mim. Prenso junto. Juntinho. As ondas batem, surram as pedras que poderiam ser nossa melhor morada. Ah, Deus!, como eu queria eternizar este instante. A juventude me condenou, e me vi aos prantos, querendo voltar. Mas quer saber: pro diabo com seu olhar! Eu me apegava na vida. Eu me apegava nessas damas que pairam de vermelho, verde e azul turquesa. Me chamava José, João ou outro nome qualquer. Morava ali, acolá. Vivia do vento e de alguns baseados.

Mas, voltando a essa rocha, me via preso a um domingo de manhã. Aprisionado a uma rocha da Joaquina. Era uma puta maresia, um aconchego do caralho. Lá de longe podia sentir o cheiro de suor, o cheiro de batata frita de algum fast food. O cheiro da população vazia. E, às vezes, me sentia tão só, tão frágil por fazer parte disso tudo, como um adolescente em crise. Um adolescente de trinta e dois anos, uma tatuagem desbotada e algumas idéias perfeitas que jamais sairiam de dentro da cabeça de poucos neurônios.

Naquela rocha da Joaquina passaram milhares de histórias, imagino. Histórias de amores lascivos, cerveja e bagulho, algumas infelizes histórias, também. (Quero dizer, que coisa incrível! Peço com fé, com muita fé pra jamais deixar de presenciar e sentir o que sinto agora, sobre o olhar dilatado que se transforma em paixão). Pode ser que eu tenha encontrado meu caminho. Era Maria, Ana, ou seja lá o que fosse. Era mais uma, mas a única na rocha da Joaquina. Ela me disse que jamais esqueceria. Eu acreditei, depois desacreditei; ao fim acreditei mais uma vez. Por que não? Você não acreditaria? Num doce lábio vermelho? Numa tempestade de cabelos castanhos? No sorriso alegre que pedia mais e mais. Beijei-a. Agarrei forte seu cabelo. Ela me mordeu. Recuei. Ela sorriu e eu retribui. Abocanhei-a. Passei a mão por dentro de sua blusa boba de cetim. Ela arrancou minha camiseta. O sol estava quente o bastante para nos aquecer, talvez o bastante para nos querer livre de toda roupa. Sutilmente tirei sua blusa, depois o sutiã. Depois a calça. A calcinha só puxei para o lado. Esquentou. Primeiro eu, depois ela, a rocha, o mar, o todo, tudo.

Tudo.

Ela sorria. Aquele sorriso dobrado, de canto, inconseqüente. Sorriso honesto, não apaixonado, porém safado. Sorriso frágil que jamais consegui dar, ela sim conseguia, não garanto que sempre, mas ali dera. Sorriso filho da puta de bom! Ela gemia baixinho. As ondas quebravam. Íamos em sincronia, perfeita sincronia. Mais alto que o céu. Clichê, cllichê, clichê! Foda-se se era clichê! Era meu momento, seu momento, nosso momento. Eu tava longe. Ela cantarolou suave “baby you just make me mad”. Explodi. Ela soltou uma gargalhada. Eu fiquei ali parado. Ela me beijou unicamente bem. Meu eterno momento, na pedra da Joaquina. Pegou o baseado ainda em cima de mim. Reacendeu.

- Você está pronto?

- Não. Só mais um minuto, tenho que descansar um pouco, meu bem.

- Cara! Isso foi tão bom, de verdade. Foi rápido, mas... Ah, droga! Intenso, saca?

- Isso não precisa acabar, a minha vida se resume a isso. Um momento sublime.

- Desculpa querido, mas você precisa voltar...

O céu escureceu. O mar não estava pra peixe. Uma ventania começou dum lugar que antes não percebera. O que era aquilo? Um helicóptero se aproximava da rocha. Voava baixo, inconseqüente naquela ventania. Um homem, algum tipo de paparazzi, tentava se equilibrar com uma câmera profissional na mão esquerda. Levantei-me com as calças arriadas. Mas que diabos era aquilo? Um tubarão branco apareceu. Enorme. Vinha rápido, muito rápido. Pulou como um golfinho. Alcançou o homem que estava com a câmera e arrancou suas pernas. A parte inferior do helicóptero ziguezagueou no ar, duas voltas em torno de si. Caiu. Agora eram vários tubarões. Cada um mais feroz que o outro. Olhei para a garota. Ela estava nua, com olhar sereno. Olhei novamente para o mar. O helicóptero não estava mais lá. Nem os tubarões. O céu permanecia negro. Ela se aproximou. Estendeu sua mão até meu rosto. Com as costas da mão me fez carinho.

- Desculpa querido, mas você realmente precisa voltar...

- Voltar?

- Sim, voltar.

Meus olhos lacrimejaram. Havia pimenta neles. Esfreguei com as mãos. Melhorou um pouco. Olhei pra ela, estava deitada. Não estava nítido. Porra de baseado! Perto de seus pés enxerguei algo, creio que um peixe. Levei a mão aos olhos novamente. Apertei bem forte desta vez. Melhorou. Ela continuava deitada. Sorriu diferente. Deus do céu! Ela estava sem pés, sem pernas, sem vagina. No lugar destes havia escama, cauda, havia uma coloração esverdeada. Bye, ela disse. Depois pulou. O mar explodia cada vez mais perto. Um telefone tocou. Automaticamente fui atender. Estava perdido entre minhas roupas. O procurava, mas estava difícil. Havia muitas peças. Aquilo tudo não podia ser meu. Cadê esse telefone? Cadê, porra! Entre as roupas senti algo. Agarrei. Parou de tocar. Puxei pra fora. Era uma banana. Fiquei olhando. Era grande, amarela, uma boa banana. Uma banana pornográfica, porem comestível. Ela tornou a tocar. Minha insanidade estava aflorando. Abri o telefone, a banana, aquilo em minhas mãos.

- Sim?

- Baby you just make me mad…

Minha espinha doeu.

Minha espinha doeu muito. Abri os olhos. Estava deitado. Tudo branco. Tudo calmo. Minha respiração ficou ofegante. Sentia dor atrás de dor. Nada fazia sentido. Quem estava naquela praia? Primeiro entrei em pânico, depois tentei gritar, mas não saía voz e os músculos não se mexiam. Parecia estar sangrando. Estava. Meu nariz golfava sangue quente, sangue doce, humano. Tentei me mexer, mas algo me segurava. Tentei ver meu corpo, mas também não tive êxito. Continuava sangrando. Alguém entrou. E mais alguém. Três, talvez quatro. Senti algo penetrar. No braço. De novo. Tem tubarão, tem, juro que tem, pensei. Meu coração sossegou, bem devagar. Os olhos moribundos fecharam.


##


- Doutor, ele vai ficar bem?

- Agora vai.

- Será que ele pode me ouvir?

- É muito provável que não. Lamento.

Saíram.

(Os olhos dela pegavam fogo. Pegavam fogo mesmo sendo azuis. Deu-me um beijo. Adorava seu olhar somente para mim. Detestava aquele olhar para o nada; para outros nem tanto, mas em especial para o nada. Lágrima e tristeza inundou sua alma e por um instante tive a certeza de um tal amor. Beijou um lábio seco e frio e logo depois sorriu. Quando sorriu, soubemos que algum dia, iria ficar tudo bem.)


Ami Porto